Life Is Strange: sobre as diferentes maneiras de sofrer o luto.
- lagarghetti
- 14 de fev. de 2025
- 6 min de leitura
Querido leitor, eu gosto de acreditar que todos ao meu redor já passaram pela fase de ser obcecado com a famosissíma Chloe Price, em 2015. Imagine a seguinte situação: uma garota, nascida nos anos 2000, que se considerava a maior fã de Lady Gaga, Demi Lovato, Avril Lavigne e Katy Perry e que, além disso, sonhava diariamente com a possibilidade de um dia pintar seu cabelo - você consegue facilmente vizualizar o tipo de pessoa que ela seria hoje em dia. Felizmente, essa garotinha teve a oportunidade de entrar em contato com um dos melhores jogos da sua vida, Life Is Strange, também chamado de Lis.
Para aqueles que não estão situados, ele se trata de uma sequência de jogos que, atualmente, pertence a empresa Deck Nine, mas que foi originalmente publicada por um grupo de desenvolvedores chamado Square Nix e desenvolvida pela Dontnod Entertainment. A franquia conta com seis lançamentos, um deles tendo sido "inaugurado" recentemente, o Life Is Strange: Double Exposure, que retoma os acontecimentos do primeiro, e duas DLC's. Cada Lis possui uma nova narrativa e diferentes personagens, mas todos eles estão de alguma maneira interligados, e a principal delas é pelo luto.
No post de hoje, eu gostaria de, não apenas expressar meu amor e carinho por essa franquia, mas ser capaz de refletir como cada jogo consegue trabalhar de maneira única com as formas de lidar com a perda de alguém. Eu espero, meu querido leitor, que a leitura de hoje não apenas faça você aprender algo novo, mas que você possa conhecer e ter interesse pelas incríveis histórias que Life Is Strange tem a contar.

E se pudéssemos voltar no tempo?
Essa é a reflexão principal do primeiro jogo, lançado em 2015 e protagonizado por Max Caufield, uma jovem estudante de fotografia, que descobre acidentalmente seus poderes de ser capaz de voltar no passado.
Ao longo da trama, você possui a habilidade de utilizar seus poderes para resolver até as situações mais simples, como evitar que alguém seja atingido por uma bola de basquete, evitar desapontar um professor com a escolha inadequada de palavras e, até mesmo, salvar a vida da sua melhor amiga. É a partir dessas interações que o jogo levanta seu maior questionamento: se tivéssemos a capacidade de voltar no passado e impedir a morte de alguém, será que deveriamos?
A princípio, a resposta pode parecer simples, especialmente para aqueles que já enfrentaram a dor da perda: é claro que sim. No entanto, a narrativa nos surpreende ao mostrar que, após inúmeras tentativas de usar nossos poderes para alterar o destino, nos deparamos com a devastação da cidade e o caos que resulta da quebra da ordem natural das coisas. No final, somos confrontados com uma decisão crucial: aceitar as consequências das nossas ações, sacrificando várias vidas em nome de uma, ou aceitar a morte daquela que tanto lutamos para salvar.
Em Life Is Strange, sentimos na pele a dor de Max quando temos que fazer essa escolha - porém, sendo agradável ou não, eu diria que a decisão certa é salvar a cidade, deixando nossa amiga para trás. Isso porque a protagonista não apenas a salva por ser capaz disso, mas sim pelos seus sentimentos, por ser incapaz de aceitar o luto e entender que as coisas, mesmo que pareçam injustas, devem ser desse jeito.
Assim, o primeiro jogo encerra com essa forte escolha e reflexão - mesmo que sejamos capazes de mudar o destino das pessoas, de entes amados que se foram e até mesmo daqueles que não conhecemos tão bem, devemos aceitar a ordem natural da vida e da natureza. Mesmo aquilo que soe mais injusto e sem sentido, possui uma explicação, uma causa que, no futuro, terá uma consequência.
"Você não está me trocando. Talvez tenha estado apenas atrasando o meu verdadeiro destino... olhe quantas vezes eu quase morri ou de fato morri perto de você. Olhe o que aconteceu em Arcadia Bay desde que você me salvou pela primeira vez. Eu sei que fui egoísta, mas, pelo menos uma vez, acho que devo aceitar o meu destino."

Sobre fugir.
Em Life Is Strange 2, não há tempo para chorar. A narrativa acompanha dois irmãos, Sean e Daniel Diaz, que enfrentam uma reviravolta devastadora após a morte trágica de seu pai. O incidente dá inicio quando Sean se envolve em uma briga com um vizinho, atraindo a atenção de uma viatura que passava. A situação rapidamente se transforma em um caos. O pai dos meninos sai de casa na tentativa de apaziguar a discussão, mas as coisas fogem do controle quando um policial dispara contra ele. Nesse momento, Daniel, involuntariamente, ativa seus poderes sobrenaturais, resultando na morte acidental do oficial.
O foco da história é o destino dos irmãos Diaz. A narrativa apresenta sete finais distintos, que incluem a possibilidade de viver como foragido no México, país de origem do seu pai, ou assumir a culpa pela morte do agente no início do jogo, resultando em anos de prisão. Além disso, as decisões que o jogador toma influenciam na personalidade do nosso irmão mais novo. Isso significa que, existe a chance dele se revoltar conosco no encerramento da história e trilhar o próprio caminho.
Ainda, diferente de Max, Daniel não possui a vantagem de poder voltar no tempo, e, mesmo se possuisse, não seriamos nós, jogadores, que tirariamos proveito dela, visto que nosso irmão toma as decisões por conta própria, sendo seu próprio personagem - sua habilidade é a de controlar objetos com a mente, que se demonstra extremamente benéfica durante o jogo.
Particularmente, apesar do meu carinho imenso pelo primeiro jogo, preciso admitir que Lis 2 é meu favorito. A história conta, não apenas com a temática do luto, mas com criticas ao racismo e xenofobia, com questionamentos diante a criminalização da maconha, com diversas representações de diferentes estruturas familiares, com diversidade, com doutrinas religiosas e com diversos outros inúmeros assuntos sociais de extrema importância que, infelizmente, nem sempre são debatidos no mundo dos jogos.
Em resumo, eu arrisco dizer que, de todos os lançamentos da franquia, esse é o que menos trata diretamente da dor do luto: não há tempo para isso. Nós observamos a todo instante o amadurecimento de Sean, que possuía apenas 16 anos quando teve que assumir o papel de seu pai para ser capaz de se manter vivo. Isso nos leva a refletir: quantos jovens passam pelo mesmo? Quantos jovens passam pelo amadurecimento precoce causado pelo falecimento de um ente amado, carregando responsabilidades tamanhas que, na verdade, nem deveriam ser suas?
Na trama, há poucos momentos em que os personagens têm a oportunidade de expressar seu sofrimento e chorar, mas quando isso ocorre, a intensidade da tristeza é gigantesca.
Então, como termina a história dos irmãos lobo?
Eles chegam ao outro lado.

Todo mundo sofre também.
E por fim, chegamos em Life Is Strange: True Colors, o terceiro jogo principal da franquia. Aqui, estamos cercados pelo luto. Alex Chen, a protagonista, enfrentou o luto ao perder sua mãe aos 11 anos de idade. Oito anos depois, ao se reencontrar com seu irmão mais velho, Gabe, a tragédia se repete quando ele é misteriosamente morto em uma explosão provocada pela mineradora Typhon.
Em True Colors, o jogador possui a habilidade de absorver e ler as emoções das pessoas ao seu redor. Quando eu primeiramente li sobre isso, confesso que não levei muito a sério e não entendi de que maneira ela poderia ser útil, especialmente quando comparada com viagem no tempo e telecinese. Mas, assim que pude jogar pela primeira vez, pude realizar que é uma mecânica que conseguiu ser muito bem usada na trama, e eu admiro muito a forma como foi implementada.
Assim, Alex não lida apenas com suas emoções diante a morte de seu irmão, mas de todos aqueles que, de algum modo, o conheciam e sentiam algo por ele. Apesar disso, a trama conta com diversos momentos divertidos, como um capítulo inteiro baseado em uma sessão de RPG ao vivo (ou LARP), boas partes dedicadas apenas a exploração da cidade, aprofundamento do desenvolvimento de personagens secundários e momentos devotados a um romance entre a protagonista e os dois principais interesses amorosos. Eu acredito que essa é a principal magia dessa história, a maneira com a qual o luto é representado. Em nenhum momento ignoramos o sentimento de tristeza, mas também passamos pela raiva, pela nostalgia, pela negação e tentamos seguir em frente com momentos de distrações que geram boas risadas e amizades incriveis.

Querido leitor, Life Is Strange: True Colors não é, nem de perto, meu favorito, mas é um jogo que vale a pena ser jogado. Apesar disso, eu espero que, eu não apenas tenha te convecido a querer saber um pouco mais da história incrível que essa franquia tem a apresentar, mas que você possa ter aprendido um pouco mais sobre nossas emoções hoje.
Não existe maneira certa de sofrer o luto, e nem uma definição concreta do que de fato ele é. Além disso, muitas vezes, o sofremos por pessoas que ainda estão vivas, e isso é normal.
Com isso, eu finalizo o post de hoje, na esperança de que, caso você esteja passando por algo parecido, assim como a Max, o Sean e a Alex, você consiga achar a beleza nesse processo e crescer nele também.

i si ao inves de life is a strange fosse life is bizarre