A internet e a performance.
- lagarghetti
- 23 de fev. de 2025
- 3 min de leitura

Querido leitor, você se lembra de qual foi a sua primeira rede social? Em uma conversa recente com meus amigos, percebi um padrão: sim, nós lembramos.
Foi a partir disso que outras perguntas surgiram em minha mente: você se lembra do primeiro post que você fez? Ou de quantas postagens você viu desde a primeira vez que você criou sua conta no Instagram, ou no Twitter? Você se recorda da primeira vez que você viu a foto de alguém e se comparou? E de quantas vezes desde então você mediu sua beleza com a de alguém online?
Arrisco afirmar que, fomos, de modo generalizado, expostos muito cedo a um gigantesco bombardeio de informações, que não éramos nem capazes de interpretar. Por exemplo, eu tive um contato com computadores e telas televisivas muito anteriormente a conteúdos literários. Essa é a maior característica da nossa e da próxima geração: aprendemos a usar um celular, muito antes de aprendermos a formular um pensamento crítico. Temos a prova viva dessa causa quando, em restaurantes e confraternizações, a mãe, não sabendo como acalmar seu filho, percebe que ele só irá se distrair do desconforto que sente ao entrar em contato com o celular.
Superficialmente, questiono: de que maneira isso nos afeta atualmente? Indúbitavelmente, das mais variadas possíveis. Mas, hoje, eu quero falar sobre uma delas: as consequências de uma performance em que atuamos diariamente, influenciada e patrocinada diretamente pelas redes sociais.

A "It Girl" e a distorção.
No final dos anos 20, a atriz Hollywoodiana Clara Gordon Bow interpretou uma icônica comédia romântica nomeada "It", que lhe rendeu seu novo apelido: a It Girl.
Ao contrário do que o termo representa atualmente, ele era um reflexo da personalidade de Clara: ela era espontânea, modesta, naturalmente atraente e extremamente segura de si.
A artista chamava atenção principalmente pela sua humildade; Bow veio de uma estrutura familiar instável e empobrecida, porém, ela nunca fizera questão de esconder sua história e as dificuldades que passara.
Assim, com o passar dos anos e enfrentando inúmeros desafios em sua vida pessoal, a atriz desejou ser lembrada não apenas por esse rótulo, mas como sendo uma artista renomada que deixou uma marca na juventude de sua época. Infelizmente, o termo continua associado a ela, mas agora é apropriado por uma nova geração de meninas que desconhecem sua origem.
Para aqueles que possívelmente não compreendem o significado atribuido a esse apelido nos dias contemporâneos, permita-me resumir, trata-se da "garota perfeita". Ela não tem acne, seus cabelos são longos e brilhantes, obviamente é magra, rica e tem vários amigos. Alguns ainda atribuem inteligência como um dos requisitos, entretanto, eu gosto de separar esse conceito do termo, porque uma "it girl" não é rotulada por dentro, mas por fora.
Inconscientemente, uma vez expostas a esse conteúdo, tornamos-nos reféns dele. Somos vítimas de uma enxurrada de conteúdos apelativos, que nos apresentam a versão perfeita do que deveria ser uma mulher, nos fazendo acreditar cegamente que aquilo é possível, que podemos alcançá-la. Viramos espectadoras de atrizes que nem sequer conhecemos, mas que desejamos ser. Subitamente, estamos performando, junto com elas, uma vida que não é nossa.
Autenticidade e a tentativa forçada.
E então, percebemos. A problemática surge quando entendemos que essa visão repentina de uma rotina perfeita, que tanto buscamos, raramente é originada de nós mesmos. Frequentemente, é a voz de um terceiro que se manifesta, que busca nos avisar sobre as consequências que as redes sociais trazem para a nossa saúde mental. E, nesta ocasião, esse terceiro sou eu.
Uma vez que um terceiro assume esse papel, colocamos em suas mãos a responsabilidade da criação do "novo eu". Constantemente negamos nosso comprometimento com nossa própria identidade pelo medo da falha, da rejeição - e se a versão verdadeira do "eu", não for tão boa assim? Assim, passamos a precisar de mais um manual, mais um rótulo, para darmos a nós mesmos.

Søren Kierkegaard, filosófo dinamarquês e pioneiro do pensamento existencialista, defendia que a condição da liberdade humana nos confrontava com escolhas e possibilidades infinitas, agregando no sentimento da angústia e do peso das nossas obrigações. Quando somos defrontados com isso, com os inúmeros caminhos que a vida tem a nos apresentar, corremos em busca de um refúgio.
Jean-Paul Sartre, filósofo francês, chama isso de má fé. Quando atribuimos a chave do nosso destino nas mãos de outra coisa ou pessoa, estamos negando nossa liberdade, sendo essa uma condenação existencial, comportando-nos como objetos.
Em suma, em busca de sairmos desse ciclo performático midiático, necessitamos, primeiramente, reconhecer que estamos nele e, conseguintemente, abraçarmos a nossa condição humana livre, encarregando-nos das responsabilidades das nossas ações e assumindo o controle do nosso futuro. Necessitamos ler mais livros, assistir mais filmes, encontrarmos-nos nas artes e questionarmos tudo aquilo que está ao nosso alcançe. Precisamos sair desse palco que não é nosso, precisamos viver a nossa própria peça.


ficou muito bom parabens mas entao isso significa que nao posso dar uma zapzada mais é?